sobre
Criança faz birra.
Quer uma coisa. Quer muito. Quer agora. Quer de novo.
Do outro lado, precisa de alguém que diga não.
E então ela insiste.
A criança ainda não aprendeu todas as maneiras que os adultos encontram para negociar, adiar, disfarçar ou, às vezes, até desistir dos próprios desejos.
Por isso, ela insiste.
Chora, grita, se joga no chão, testa mais uma vez.
Faz birra.
E o outro responde.
É nesse movimento, entre o desejo e o limite, que uma criança começa, pouco a pouco, a desenhar seus contornos. Descobre que nem tudo é possível, mas também descobre aquilo que quer. Insiste, encontra um limite, tenta de novo.
A birra pode ser barulhenta, cansativa ou mesmo aparentemente sem cabimento.
Mas ela faz parte do trabalho fundamental de crescer: experimentar o próprio desejo diante do outro.
A gente cresce e aprende formas mais sofisticadas de lidar com a frustração.
Mas continuamos. Querendo. Insistindo. Emburrando. Recusando determinados nãos. Tentando de novo.
A birra muda de forma à medida que a gente cresce.
A própria infância também não fica simplesmente para trás; ela segue existindo nas nossas memórias, medos, desejos, afetos e nas histórias que contamos sobre quem fomos e sobre quem somos.
A infância passa, mas alguma coisa dela continua trabalhando dentro de nós.
É desse lugar que nasce a Birra.
Ela começou em uma prática muito íntima de procurar livros para a minha filha. Ou encontrar uma história e perceber que, talvez, eu mesma é que precisasse dela.
Livros escolhidos pelos textos, pelas ilustrações, pelos projetos gráficos, pelo humor, pelas perguntas que provocam e pelos mundos que conseguem abrir. Uma curadoria costurada pela minha relação com o design, a psicanálise, pela experiência de maternar e, sobretudo, pela experiência de ler e descobrir o mundo junto.
Ler para uma criança nunca é uma experiência de mão única. A gente oferece uma história, mas também recebe de volta uma interpretação, uma pergunta inesperada, uma palavra repetida, uma associação que não teríamos feito sozinhos. Lê-se junto. Descobre-se junto.
A Birra é uma curadoria de livros para a infância.
Mas não quer ensinar ninguém a educar uma criança, oferecer respostas prontas ou transformar a leitura em mais uma obrigação da parentalidade.
Ela aparece como um espaço de troca, companhia e compartilhamento de descobertas. Compartilhamos aquilo que recomendaríamos a alguém de quem gostamos.
A infância não é um universo pequeno, isolado ou separado da vida adulta. É onde aprendemos a desejar, imaginar, perguntar, nos relacionar, encontrar o outro e lidar, pouco a pouco, com os limites do mundo.
A Birra é uma curadoria de livros para a infância. Mas também é uma costura. Entre a criança que fomos e a criança que temos diante de nós. Entre as histórias que recebemos e aquelas que escolhemos passar adiante.
︎︎︎ Para crianças, para quem lê com elas e para todos nós que, de um jeito ou de outro, ainda fazemos birra.