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O livro dos números, de Marcelo Cipis, 2006

Como ensinar crianças pequenas, que estão na fase de inserção na linguagem, a quantificar coisas do jeito mais acessível e descomplicado que eu já vi. O livro combina a imagem do numeral, mãoszinhas com a quantidade de dedos levantados e cenas de objetos em brincadeira, pra dar uma volta completa no processo de assimilação.

Ver trabalhos de artistas visuais, plásticos, escritores etc. de quem eu gosto numa dimensão para a infância é outra categoria das minhas favoritas. O Marcelo Cipis se formou na FAU com a minha mãe e, desde que ela contornou isso pra Gal — que sempre se interessa por quem são os autores dos livros que lemos —, ela me perguntou todas as vezes que pegamos esse: “Mamãe, por que ele estudou com a vovó Márcia?”. O que me convoca a inventar histórias pra desvendar o porquê.

Aproveito a deixa para indicar também a exposição de Marcelo Cipis com o Macelo Jarosz, É Tudo Mentira, na @objetoparticular.

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Brincando com seus alimentos, de Joost Elffers e Saxton Freymann, 1998

A categoria de livros que ensinam e estimulam brincadeiras é uma das minhas favoritas, e das mais úteis, quando são bem feitas. Sempre agradeço por ter uma coleçãozinha desses quando estamos de molho em casa sem escola por causa de gripe ou afins, e a gente precisa inventar 1.001 atividades pra entreter a criança ao longo de um dia todo.

Os bichos construídos com frutas e legumes são arte purinha e eu sou obcecada pela ~estética, mas além de mostrar as imagens preciosas, ele ensina toda a técnica necessária pra transformar os alimentos em bichos: como fazer olhos, bocas, narizes, patas, dentes e todo tipo de detalhe que faz aparecer um rosto onde antes tinha uma cenoura, uma banana ou um pimentão.

Lembro da sensação de encantamento e vontade de fazer cada um daqueles bichos-comida, e hoje de folheá-lo reviro o mesmo desejo.

Tem ainda mais uma camada importantíssima: lembrar a gente de, sempre que possível, estimular crianças a construírem uma relação forte e saudável com a comida, num mundo cada dia mais empenhado em convencer as pessoas de que o certo é ser frágil e raquítico como estratégia de manutenção do capitalismo patriarcal, quando o que a gente mais precisa é de força e energia pra brincar, crescer e se divertir.

Ensinem suas crianças a amar comida e a amar comer. 🫜 #livros #literaturainfantil #literaturainfantojuvenil #birrabooks
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Si Soplo, de Melina Barrera e Sabina Schürmann, 2025

Todas as coisas que dá pra fazer soprando (além de derrubar casas); ou pelo menos pra mim é assim vem o pensamento no automático, já que a protagonista é uma menina de gorro vermelho e, na minha cabeça, em um dia o lobo visita os porquinhos, e no seguinte, a vovó da chapeuzinho. Mas, importante dizer, toda essa história não tá contida no livro — ainda que talvez no meu exemplar esteja, só que pra isso a contadora de história precisaria vir junto na encomenda. Comprado em Buenos Aires no ano passado, foi um dos favoritos da Gal por um tempão e até hoje ainda lemos vez ou outra, ela prestes a completar três anos.

Sou muito fã dos livros da @periplo, não por acaso, a editora é da cidade com maior número de livraria do mundo: projetos gráficos de muito bom gosto, histórias geniais com sacadas espertas e as ilustrações sempre um caso de amor à parte.

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Aventuras de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll e Ilustrações de Yayoi Kusama, 2014

Quando eu tinha acabado de completar 18 anos, comprei esse livro de presente de aniversário pra minha mãe. Ela tinha me levado na exposição Obsessão Infinita, que depois eu soube ter sido recorde de visitas no CCBB de Brasília no mesmo ano. Aquele mundo de luzinhas coloridas, etiquetas adesivas pra colar em todos os espaços vazios e salas interativas me marcaram tanto na ocasião que mesmo no auge da minha adolescência, quando o brilho da infância arrefece pra dar lugar a uma ansiedade por virar gente grande, guardei que ela era fã da Yayoi, mas quem se tornou fã dela depois disso fui eu mesma. Hoje em dia entendo, em grau número e gênero; o desejo obsessivo da artista e o desejo fantasioso da Alice. O mundo adulto é mesmo absurdo e o tempo é de fato infiel.

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Como ler as indicações

As idades sugeridas consideram aspectos como linguagem, imagens, extensão e complexidade da narrativa, mas acreditamos que toda história pode encontrar leitores de diferentes tamanhos.

São recomendações e não limites de faixa etária: bons livros podem ser lidos e relidos ao longo da vida. Um livro indicado a partir dos 3 anos também pode encantar uma criança de 9, e vice-versa.

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Criança faz birra.

Quer uma coisa. Quer muito. Quer agora. Quer de novo.

Do outro lado, precisa de alguém que diga não.

E então ela insiste.

É nesse movimento, entre o desejo e o limite, que uma criança começa, pouco a pouco, a desenhar seus contornos. Descobre que nem tudo é possível, mas também tenta desvendar aquilo que quer.

A birra pode ser barulhenta, cansativa ou mesmo aparentemente sem cabimento. Mas ela faz parte do trabalho fundamental de crescer: experimentar o próprio desejo diante do outro.

A gente cresce e aprende formas mais sofisticadas de lidar com a frustração. Mas continuamos. Querendo. Insistindo. Emburrando. Recusando determinados nãos. Tentando de novo.

A birra muda de forma à medida que a gente cresce.

A infância passa, mas alguma coisa dela continua trabalhando dentro de nós; ela segue existindo nas nossas memórias, medos, desejos, afetos e nas histórias que contamos sobre quem fomos e sobre quem somos.

A Birra é uma curadoria de livros para a infância. Mas também é uma costura. Entre a criança que fomos e a criança que temos diante de nós. Entre as histórias que recebemos e aquelas que escolhemos passar adiante.

Compartilhamos aquilo que recomendaríamos a alguém de quem gostamos.

Para crianças, para quem lê com elas e para todos nós que, de um jeito ou de outro, ainda fazemos birra.

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